No início de 1967, em correspondência ao chefe do Estado Maior das Forças Armadas Australianas, o General Vincent, então Comandante Chefe das Forças Australianas no Vietnã relatava suas preocupações com as oportunidades perdidas de derrotar o Vietcong (VC, ou simplesmente “Charlie”. Copiando as táticas de guerrilha bem sucedidas de Mao Tse Tung, eles escolhiam, aonde, como e quanto tempo lutar, fugindo para seus esconderijos no meio da mata sempre que se sentiam ameaçados. E a única forma, segundo Vincent, de romper essa vantagem seria o emprego de tanques médios.
Assim, um esquadrão de tanques reforçado foi formado dentro das fileiras do 1º Regimento Blindado (1 Armd Regt) para servir no Vietnã no início de 1968. AO chegar no Sudeste Asiático em fevereiro do mesmo ano, este esquadrão ficou subordinado ao comando da 1ª Força Tarefa Australiana (1ATF), baseado na província de Phuoc Tuy, a leste de Saigon. Nos 3 e meio anos seguintes, estes tanques participaram de operações contra as guerrilhas locais Vietcongues e o Exército Regular Norte Vietnamita, na província de Phuoc Tuy e arredores, até a sua retirada em setembro de 1971. Neste período, 57 tanques Centurion, 4 unidades ARV (Armoured Recovery Vehicles – veículos oficina) e 3 lança-ponte foram utilizados. Como ocorre quando um veículo inicialmente projetado para um determinado teatro de operações é utilizado em outro, diversas modificações são feitas, muitas delas fruto da inventividade e capacidade de improviso das próprias tripulações. Assim, não podemos dizer que houve um tipo específico de Centurion australiano no Vietnã e esta evolução, bem como organização tática das unidades e as missões efetuadas serão analisadas ao longo deste artigo.
Os Centurions Australianos
Os tanques médios Centurion e suas variantes equiparam os Reais Corpos Blindados Australianos (Royal Australian Armoured Corps – RAAC) a partir de 1952 até serem substituídos por Leopards AS 1 em 1977; neste período forma matriculados 138 veículos (Army Registration Number – ARN).
Nas vésperas do envio do esquadrão para o Vietnã, havia em estoque 127 veículos, dos quais 10 eram unidades especializadas – ARV´s e lança-ponte – e que foram entregues em 3 lotes entre 1951 e 1957.
A primeira encomenda ocorreu em meados de 1949 e constava de 60 unidades MK. 3, que começaram ser entregues entre outubro de 1951 e e maio de 1952, recebendo o numeração ARN 169000 a 169059. Eram veículos originalmente com numeração do Exército Britânico (Equipment Registration Number – ERM)
Uma segunda encomenda para mais 51 Centurions foi feita em 1954. EM contraste com a primeira leva, estes foram feitos exclusivamente para os australianos, nas fábricas da Royal Ordnance em Barnbow e Dalmuir. Estes veículos chegaram entre 1955 e 1956 e já eram da versão Mk. 5 padrão, recebendo a numeração 169060 a 169110.
A terceira encomenda, feita entre 1955 e1956, foi de apenas 6 Mk. 5 e a razão de um pedida tão pequeno é incerta. Crê-se que eram excedentes de estoques dos próprios britânicos, mas não na confirmação disso. Receberam matrícula de 169115 a 169120, e nenhum destes foi pro Vietnã.
Quatro Centurion Mk. 5/1 (169071, 169078, 169079 e 169106) foram convertidos em tanques-buldozer, entre meados e fins dos anos 60; estas conversões ficaram disponíveis nos arsenais britânicos a partir de 1961.
Completando a frota, havia ainda 10 veículos especializados: 5 ARV´s (Mk.2) e 5 lança-pontes (Mk.5).
O papel a ser desempenhado pelos ARV´s era:
“permitir que veículos imoblizados sejam recolhidos de áreas sob fogo inimigo, proporcionando proteção blindada às equipes de recuperação.”
Um pedido de unidades 4 ARV´s foi feito junto com a segunda encomenda (a dos 51 MK. 5 em 1951) e só foram recebidos entre 1955 e 1956, recebendo matrícula 169111 e 169114. Uma segunda encomenda para mais 2 ARV´s foi feita em 1955/56 e recebidos entre 1956/57, com a numeração 169121 e 169122.
Quatro Centurions lança-ponte foram adquiridos no início da década de 60. Seu perfil operacional foi assim definido:
“prover instalações de pontes capazes de suportar cargas de classe 80 durante uma ofensiva de combate.”
Quando das entregas, foram registrados como: 115541 a 115544, o que é curiosamente, era uma classe de numeração destinada aos veículos de transporte de tropas sobre rodas Saracen (que por sua vez utiliza o mesmo chassis do famoso Saladin).
Em resumo:
Total de Veículos
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Data de entrega
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ARN (matrícula)
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60 Mk. 3
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1951/52
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169000-169059
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51 Mk. 5
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1955/56
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169060-169110
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04 Mk. 2 ARV
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1955/56
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169111-169114
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06 Mk. 5
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1956/57
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169115-169120
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02 Mk. 2 ARV
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1956/57
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169121-169122
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04 Mk. 5 Lança-ponte
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1960/61
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115541-115544
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Da Nova Zelândia, comprou-se mais 8 tanques e uma unidade ARV para resolver um problema crítico de escassez de peças de reposição no Vietnã em 1968; tais veículos acabaram sendo canibalizados, enquanto que o ARV foi posto em serviço, mas serviu somente em território australiano. Um pequeno número de cascos Neo-Zeolandeses foram utilizados para substituição em tanques danificados por minas terrestres, e pelo menos um destes, o ARN 169017, acabou retornando para o Vietnã para um segunto tempo!
Uma compra final de 10 Centurions MK.5 que estavam alocados nas forças britânicas em Hong Kong foi feita em 1972 e portanto não foram para o Vietnã.
Os primeiro usuários dos Centurions no exército australiano foi o 1º Regimento Blindado (1 Armd Regt) e o Centro de Blindados (Armoured Centre), sediado em Puckapunyal, no estado de Victoria, ao sul da Austrália, equipado originalmente com veículos Churchill, nos mesmos padrões ingleses, ou seja, esquadrões e tropas (no exército americano correspondem a companhias e pelotões, respectivamente). O número de veículos de um regimento nos anos 50 e 60 oscilava em torno de 35, além de um pequeno número de veículos especializados, conforme forma entrando em serviço.
Já o Centro de Blindados, por ser uma unidade de treinamento, recebeu todas as variantes dos Centurions empregados pelo exército australiano, num total de 15.
Os Centurions enviados para o Vietnã
Em 17 de outubro de 1967, o governo australiano anunciou formalmente que as forças australianas no Vietnã seriam reforçadas, com o envio do 3º batalhão de infantaria, um esquadrão de tanques e demais unidades de apoio logísitico. O 1 Armd Regt , foi pego de surpresa com tal anúncio e preparativos apressados foram feitos para convocar pessoal, equipamentos e suprimentos para tal força.
Para equipar a força-tarefa, 30 tanques Centurion foram designados para o 1 Armd Regt. A maioria destes havia sido recentemente recondicionados no 4 Base Workshop em Bandianna, como parte de um programa cujo objetivo era prolongar a vida útil destas unidades bem como introduzir modificações nestes tanques.
30 novos Centurions foram progressivamente despachados para Puckapunyal, chegando entre novembro e dezembro de 1967. Destes, 24 eram Mk. 5 /1 (Aust); esta designação, no entanto não é uma que se possa considerar oficial naquele período, mas foi utilizada para classificar os veículos que foram submetidos a modificação, o que os deixavam no memso patamar dos Mk. 10, mas sem a adoção do canhão L7 105mm.
Vinte desses Centurions Mk. 5/1 eram equipados com 1 rádio C42 e 1 B47, identificáveis pela pelas antenas situadas na parte frontal do teto da torre; já os outro 4 eram veículos de comando, equipados com 2 rádios C42 e um B47. Esse C42 adicional melhorava sensivelmente o alcance de comunicação com as bases de comando e suporte. Tais veículos eram identificáveis pela presença de uma terceira antena posicionada na parte traseira esquerda da torre.
Todos os 24 tanques foram equipados com a seguintes modificações externas, facilmente identificáveis:
- Uma metralhadora co-axial 0,50” RMG (ranging machine gun – metralhadora de medição de distâncias);
- Um tanque extra de combustível montado na parte traseira do casco com capacidade de 100 galões;
- Equipamento de visão infravermelha, composto de visores para o comandantes, atirador e motorista e um farolete de busca com 1000 watt de potência, montado no mantlet; esta, quando não estava sendo utilizada, dispunha de um alojamento especial para guardá-la na cesta montada na parte traseira da torre;
- Um ametralhadora 0,30” Browning L3A4, montada num suporte Mounting Nº 5 Mk. 2.
Os Centurions em operação no Vietnã
O início do emprego dos Centurions no Vietnã começou em 29 de janeiro de 1968, na província de Phuoc Tuy, uma região com aproximadamente 40 quilômetros de norte a sul e 60 quilometros de leste a a oeste. Geograficamente falando, trata-se de um a planície costeira, para deparamos com os mais diversos tipos de vegetação / terrenos: desde alagados para cultivo de arroz, passando por cerrados, vegetação secundária, densas florestas tropicais e característicos de maontanhas.
O clima do Vietnã também era díspar daquele encontrado na Austrália, com o regime de chuvas abundantes de junho a novembro e um clima seco no resto do ano. O primeiro clima revelou-se um adversário terrível para a moblilidade das unidades blindadas.
Fonte
Livro Military Briefs nº 3 – Australian Centurion in Vietnam
Autor: Shane Lovell
Editora: Mouse House Enterprises
ISBN: 0-9577586-2-6
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